Quando um trust não é a resposta: situações em que ele custa mais do que resolve
Quando não fazer um trust: veja situações em que ele custa mais do que resolve, as regras da Lei 14.754/2023 sobre trusts e as alternativas mais simples.
Por Cristina Teixeira, CPA, TEP, CRC
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O trust costuma custar mais do que resolve quando o patrimônio é pequeno, quando os bens e os herdeiros estão no mesmo país ou quando a família não tem complexidade sucessória que justifique um trustee, uma escritura e uma manutenção anual. Desde a Lei 14.754/2023, o trust também tem regras próprias de tributação no Brasil, que entram na conta.
Abaixo, as situações em que vale pensar duas vezes e o que pesar antes de decidir.
Atualizado em outubro de 2026.
Por que questionar o trust antes de fazê-lo
O trust ficou conhecido como a ferramenta que resolve a sucessão internacional, e nem sempre resolve. Muitas famílias chegam à conversa com a decisão tomada: "ouvi dizer que preciso de um trust". Ouviram de um amigo, de um vídeo, de um advogado de outro país.
Para certos problemas, o trust é a ferramenta certa. Para outros, é mais peso do que ajuda. Entender a diferença antes de contratar poupa dinheiro e evita que a família passe a administrar uma estrutura de que não precisava.
O texto sobre os sinais de que você precisa de um trust olha o lado oposto, o de quando ele faz sentido. Aqui o assunto é quando não faz.
Quando o trust custa mais do que resolve
Ele custa mais quando o problema da família cabe num documento mais simples. Quatro situações aparecem com mais frequência.
Patrimônio pequeno
Um trust tem custo de elaboração, de trustee, de contabilidade e de manutenção. Num patrimônio modesto, esses custos podem comer uma parte relevante do que se quer organizar. Não existe valor mínimo universal, e a conta depende do país e dos prestadores. O que vale fazer é comparar o custo anual do trust com o problema que ele resolveria.
Bens e herdeiros no mesmo país
Quando todos os bens e todos os herdeiros estão em um país, as ferramentas locais costumam bastar: um testamento, a indicação de beneficiários em contas e apólices, a organização da titularidade. O trust ganha espaço quando há bens em jurisdições diferentes ou herdeiros em países diferentes, e perde força quando tudo está no mesmo lugar.
Família sem complexidade sucessória
Um casal com filhos adultos, dois imóveis e contas simples raramente precisa de um trust para organizar a sucessão. A estrutura ganha sentido com filhos menores ou com necessidades especiais, segundas famílias, sócios, bens em vários países ou o desejo de controlar quando e como os herdeiros recebem.
Quem quer manter controle total
No trust, os bens passam a ser administrados por um trustee. Quem não quer abrir mão de nenhum controle, ou quer poder desfazer tudo a qualquer momento, tende a se sentir incomodado com a estrutura. O artigo sobre revocable e irrevocable trust mostra como o grau de controle muda de um modelo para outro.
"Já recomendei não fazer um trust. Quando a família percebe que o problema dela se resolve com um testamento bem feito e a indicação certa de beneficiários, o alívio é visível", observa Cristina Teixeira, CPA e TEP, cofundadora da Astride. (citação proposta, aguardando aprovação)
Como o Brasil trata o trust
O trust tem regras próprias de tributação no Brasil desde a Lei 14.754/2023, e elas não somem porque o trust foi feito no exterior. Segundo o art. 10 da lei (consulta em 9 de outubro de 2026), os bens e direitos do trust permanecem sob a titularidade do instituidor depois da criação e passam à titularidade do beneficiário na distribuição ou na morte do instituidor, o que ocorrer primeiro.
Os rendimentos e os ganhos de capital dos bens do trust são considerados auferidos pelo titular e submetidos ao imposto de renda conforme as regras aplicáveis a ele (art. 10, § 3º). Se o trust tem uma empresa controlada no exterior, ela é tratada como detida diretamente pelo titular (§ 4º). Para o Brasil, então, o trust não é um lugar onde o rendimento deixa de ser visto.
O § 2º acrescenta que a mudança de titularidade do patrimônio do trust é transmissão a título gratuito: doação se em vida, transmissão por morte se decorre do falecimento do instituidor. O § 8º diz que não atender ao pedido de informações ao trustee não afasta o dever de cumprir as obrigações tributárias. O cabeçalho da lei remete à Medida Provisória 1.303/2025, e a vigência deve ser conferida na data de qualquer decisão.
E do lado dos EUA?
Se alguém envolvido for pessoa americana para fins fiscais, o trust pode gerar reporte. A página do IRS sobre o Form 3520 (consulta em 9 de outubro de 2026) informa que pessoas americanas entregam esse formulário para reportar certas transações com trusts estrangeiros, a titularidade de trusts estrangeiros e o recebimento de certos presentes e heranças grandes de estrangeiros.
O formulário relacionado, o Form 3520-A, é a declaração anual de informações de um trust estrangeiro com um proprietário americano. O artigo sobre Form 3520 e 3520-A detalha quando cada um se aplica. Um testamento ou uma conta com beneficiário, em geral, não trazem esse tipo de reporte.
O que costuma resolver sem trust
Algumas necessidades comuns têm respostas mais simples. A tabela mostra o que costuma ser avaliado antes de chegar a um trust, sem prometer que a alternativa baste.
| Necessidade | Alternativa que pode bastar | Quando ela falha |
|---|---|---|
| Dizer quem herda | Testamento válido no país do bem | Bens em vários países e leis diferentes |
| Passar uma conta rapidamente | Beneficiário indicado na instituição | Quando há conflito com outros documentos |
| Manter o imóvel na família | Titularidade em nome do casal | Divórcio, morte de um titular, mudança de país |
| Antecipar a sucessão | Doação em vida | Quando o doador quer manter controle |
O artigo sobre trust, JTWROS ou testamento compara como cada um transfere o bem. A resposta correta depende do conjunto, e uma ferramenta simples escolhida sem olhar o resto pode criar o conflito que o trust evitaria.
O que muda de caso para caso
- Valor e localização dos bens.
- Onde moram os herdeiros e qual a lei que se aplica a cada um.
- Se há herdeiro menor, com necessidades especiais ou com risco de dívidas.
- Se há empresa familiar com sócios.
- Quem seria o trustee e o custo dele.
- A residência fiscal do instituidor e dos beneficiários no Brasil e nos EUA.
Um trust bem desenhado num país pode ter consequências inesperadas em outro, e é por isso que a assinatura vem depois de olhar Brasil e EUA juntos.
Como a Astride atua
A Astride elabora trusts quando eles fazem sentido e indica alternativas quando não fazem. A primeira conversa tem justamente esse objetivo: entender o problema da família antes de falar em ferramenta.
Quando o trust é a resposta, o trabalho inclui a elaboração da escritura e a integração com o testamento e com as estruturas existentes. Quando não é, a recomendação pode ser apenas organizar os documentos que a família já tem.
Perguntas frequentes
Quando não vale a pena fazer um trust?
Em geral, quando o patrimônio é pequeno, quando bens e herdeiros estão no mesmo país ou quando a família tem uma situação simples. Nesses casos, um testamento e a indicação de beneficiários podem resolver com menos custo e menos obrigações.
Trust tem custo de manutenção?
Em geral, sim. Há custos de elaboração e, conforme o caso, de trustee, contabilidade e reporte. Os valores variam por prestador e por país, e vale pedir orçamento antes de decidir.
O trust me livra do imposto no Brasil?
Não. A Lei 14.754/2023 trata os bens do trust como do instituidor até a distribuição ou a morte e submete os rendimentos ao imposto conforme as regras do titular. A vigência da regra deve ser conferida.
Um trust evita o inventário?
Não como regra. Os bens colocados no trust seguem as regras do trust, e não do testamento, mas o efeito sobre processos de sucessão depende do país, do tipo de bem e de como o trust foi feito.
Preciso de um trust se tenho bens só nos EUA?
Não necessariamente. Depende do valor, do estado, dos herdeiros e de onde eles moram. Para o não residente, o imposto sucessório americano pode entrar na conta, e só a análise do seu caso diz se um trust é a ferramenta adequada.
O trust gera obrigação de declarar nos EUA?
Se uma pessoa americana para fins fiscais for instituidora, beneficiária ou receber certos valores, o IRS pode exigir o Form 3520 e, conforme o caso, o Form 3520-A. Para quem não é pessoa americana, essas obrigações podem não existir.
Leia também
- Guia de sucessão internacional: trust, testamento e outras ferramentas
- Preciso de um trust? Os sinais
- Trust como ferramenta sucessória: o que resolve
- Trust e reporte: o que informar no Brasil e nos EUA
Conclusão
O trust serve bem a certos problemas e sai caro para outros. Patrimônio pequeno, bens e herdeiros num só país e famílias sem complexidade costumam se resolver com documentos mais simples. E, para o Brasil, a Lei 14.754/2023 deixa claro que o trust não tira os rendimentos do radar fiscal.
Se você está começando a avaliar um trust, o guia de sucessão internacional organiza as decisões em ordem. E se a sua situação já tem bens em mais de um país, fale com o time da Astride: uma conversa inicial ajuda a enxergar tributação, titularidade e sucessão como uma decisão só.
Conteúdo educativo. Cada situação requer análise individual.
